Declaração de Jena

 

Humanidades e Ciências Sociais para a Sustentabilidade.

Dimensões culturais e regionais da sustentabilidade global

Nós, participantes da conferência sobre "Humanidades e Ciências Sociais para a Sustentabilidade" (21 a 22 de outubro de 2020), organizada em parceria com as Comissões Canadiana e Alemã da UNESCO, o Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas, o Conselho de Investigação de Ciências Sociais e Humanidades do Canadá, a Academia Mundial de Arte & Ciência, o Clube de Roma, a Academia Europaea e a União Geográfica Internacional, tendo considerado que o mundo está muito perto da última oportunidade de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, amplamente acordados.

Declaramos que:

1. Acelerar os progressos no sentido de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e implementar com sucesso a "Década de Ação" da ONU, exige uma transição da conversação sobre sustentabilidade a vivência da sustentabilidade. Esta mudança implica a necessidade de focar em especial as práticas quotidianas das pessoas. Isto inclui o desenvolvimento de políticas que permitam, promovam e apoiem uma mudança radical nas ações quotidianas dos povos.

2. Muitas políticas de sustentabilidade provêm de uma dicotomia entre a natureza e a humanidade, compreendendo a natureza como o ambiente envolvente da humanidade. No entanto, com o nosso corpo somos, nós próprios, uma parte integrante da natureza, e também o incorporamos nas nossas práticas de formas específicas, dependendo do que estamos a fazer. Esta premissa inverte a perspetiva sobre a sustentabilidade, de uma oposição natureza-sociedade para uma relação interdependente sociedade-natureza.

3. A maioria das crises atuais encontra as suas raízes em consequências não intencionais, muitas vezes previsíveis e problemáticas, de ações humanas que são, em última análise, de importância global. Isto implica a necessidade de enquadrar a crise como sendo em primeiro lugar uma questão social e não puramente ambiental, e de expandir aquilo que se entende ser a sua base de conhecimento.

4. O estabelecimento de formas de vida sustentáveis a longo prazo requer o reconhecimento das práticas do dia-a-dia como principais motores da transformação. Isto exige o respeito da diversidade cultural, social e regional dessas práticas, bem como experiências passadas de adaptação. Neste contexto, as ciências sociais e as humanidades devem desempenhar um papel central na estruturação de políticas de sustentabilidade.

5. As transformações no sentido de viver de forma sustentável serão amplamente aceites se forem desenvolvidas pelas pessoas, por partes interessadas específicas e por decisores políticos a todos os níveis, trabalhando em conjunto com peritos académicos e cientistas. Isto implica uma mudança radical de paradigma, para longe de estratégias em que “uma medida serve para todos” impostas de cima para baixo, na direção de abordagens adaptadas a contextos específicos.

6. As dimensões culturais, sociais e naturais das práticas quotidianas estão todas inerentemente ligadas entre si, localmente incorporadas e globalmente interrelacionadas de formas específicas. A compreensão desta realidade requer investigações que transcendam silos disciplinares, sem deixarem de beneficiar das descobertas de cada disciplina, e é apoiado por novas formas de organização da pesquisa.

7. Uma investigação transdisciplinar genuína deve fornecer informações e interpretações de forma acessível e facilitar a produção participativa de conhecimentos. Isto requer o apoio a movimentos de baixo para cima entre comunidades relevantes, permitindo-lhes oferecer contribuições eficazes e agir¬.

8. Uma profunda transformação social entre gerações exige que os jovens estejam especialmente envolvidos nesta mudança, desde o início. Isto exige que tenham acesso a informação e educação robustas, ao envolvimento cívico, bem como à participação política.

9. Para estabelecer formas diversas, culturais e regionais, de viver de forma sustentável, a criatividade e uma nova estética são necessárias. A forma como fazemos as coisas depende muito do que significam para nós, de como vemos o mundo e o nosso lugar nele. As artes, em todas as suas formas, juntamente com as humanidades e as ciências sociais, são cruciais para expandir mentalidades, proporcionando novas perspetivas sobre as formas de vida. Isto permitirá que a humanidade passe da era da extração para culturas de regeneração, chegue aos ODS com maior rapidez e profundidade e garanta um sucesso mensurável.

10. Para o efeito, apelamos a todas as instituições políticas e científicas relevantes, incluindo as agências de financiamento, para que utilizem a "Década de Ação" da ONU como um momento para garantir que a dimensão cultural está no centro dos programas de sustentabilidade. Isto inclui a necessidade de:

- Reenquadrar a perspetiva de base, de uma questão ambiental para um desafio social
- Complementar a orientação para soluções de estratégias de cima para baixo com abordagens de baixo para cima, mais inclusivas, de prevenção de problemas
- Promover a participação das gerações mais novas nos processos de tomada de decisão
- Reformar a Investigação em sustentabilidade, o seu financiamento e a sua organização
- Reforçar a cooperação transdisciplinar em todos os domínios da investigação
- Renovar os currículos de todas as instituições de ensino, focando-se nas emergências sociais globais e no seu domínio
- Estabelecer universidades, investigação e instituições de ensino como exemplos autênticos de transformação social
- Integrar as artes, bem como as descobertas das humanidades e das ciências sociais, na co-conceção dos futuros "modos de viver de forma sustentável", cultural e regionalmente diversificados.

Jena, 18 de março de 2021

Os participantes signatários da Conferência são :

  • Carlos Alvarez-Pereira, Membro do Comité Executivo do Clube de Roma
  • Howard Blumenthal, Fundador de Kids on Earth e Produtor da Escola Reinventante, Universidade da Pensilvânia
  • Dr John Crowley, Chefe da Secção de Investigação, Política e Prospetiva do Sector das Ciências Sociais e Humanas da UNESCO
  • Dr Mathieu Denis, Diretor científico do Conselho Internacional de Ciência (ISC)
  • Prof Tiago de Oliveira Pinto, UNESCO Titular da Cátedra UNESCO de Estudos Transculturais de Música, Universidade de Música FRANZ LISZT Weimar, Membro da Academia Europaea
  • Prof. Fadwa El Guindi, Trustee da World Academy of Art & Science, Universidade da Califórnia, Los Angeles (Aposentada)
  • Ursula Gobel, Vice-Presidente, Stakeholder Envolvimento e Avanço da Sociedade, Conselho de Investigação em Ciências Sociais e Humanidades do Canadá (SSHRC)
  • Garry Jacobs, Presidente e CEO, Academia Mundial de Arte & Ciência
  • Dr Joanne Kauffman, Especialista Independente, Ciências da Sustentabilidade, Massachusetts Institute of Technology (MIT) (Aposentada)
  • Prof Melissa Leach, Diretora do Instituto de Estudos de Desenvolvimento (IDS), Universidade de Sussex, Membro da Academia Europaea
  • Prof Martin Leiner, Cofundador & Diretor da Associação Internacional de Estudos de Reconciliação, Friedrich Schiller University Jena
  • Dr Lutz Möller, Secretário-geral Adjunto, Comissão Alemã da UNESCO
  • Prof Luiz Oosterbeek, Presidente do Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (CIPSH), Titular da Cátedra UNESCO de Humanidades e Gestão Cultural do Território, Instituto Politécnico de Tomar
  • Dr Mamphela Ramphele, Copresidente do Clube de Roma & Cofundadora da ReimagineSA
  • Prof Thomas Reuter, Membro Executivo & Trustee da Academia Mundial de Arte & Ciência, Membro da Academia Europaea, Fellow, Universidade de Melbourne
  • Prof Hartmut Rosa, Diretor do Max Weber Center for Advanced Cultural and Social Studies, Universidade de Erfurt, Professor da Universidade Friedrich Schiller Jena, Membro da Academia Europaea
  • Prof Paul Shrivastava, Diretor do Instituto de Sustentabilidade e Chief Sustainability Officer da Universidade Estadual da Pensilvânia, Membro do Clube de Roma
  • Branko Šmon, Artista Conceptual
  • Dr Anne Snick, Transdisciplinary Education in STEAM, KU University Leuven, Clube de Roma-EU, Fellow da Academia Mundial de Arte e Ciência
  • Dr Lucilla Spini, perita independente para o desenvolvimento sustentável
  • Prof Sander van der Leuuw, Diretor do AsU-SFI Center for Biosocial Complex Systems, Universidade do Estado do Arizona
  • Prof Liette Vasseur, Presidente da Comissão Canadiana para a UNESCO e titular da Cátedra UNESCO sobre Sustentabilidade Comunitária: do Local ao Global, Brock University, St. Catharines, Ontário
  • Prof Benno Werlen, titular da Cátedra UNESCO sobre Entendimento global para a sustentabilidade, Universidade Friedrich Schiller Jena, Membro da Academia Mundial de Arte & Ciência, Membro da Academia Europaea
  • Prof Tilo Wesche, Universidade Carl von Ossietzky, Oldenburg

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