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Exposição Permanente

O sentido do tato não é o mais valorizado quando pensamos na nossa relação com o mundo em geral, quando comparado com a visão (que nos ajuda a imaginar o mundo, ou seja, que inspira a imagem que dele temos), a audição (que nos ajuda a definir as noções de proximidade ou distância), o olfato (que apoia as nossas opções de inclusão ou exclusão) ou o gosto (que condiciona as nossas afinidades culturais nesse lugar onde decidimos boa parte do que somos…a mesa).

O tato é, porém, uma espécie de rendimento máximo garantido. Somos em primeiro lugar através dele, quando nos formamos ainda no ventre das mães, e recorremos a ele sempre que os outros nos falham (caminhando às escuras, sentindo a textura da comida, …) e, sobretudo, quando aprofundamos a nossa dimensão relacional (amor, raiva, …. todas as emoções se estruturam sobretudo através do tato).

Evocamos o nosso comportamento pelo tato (andar a pisar ovos, ou como um elefante numa loja de porcelanas, …) e sem ele os nossos músculos não se ativariam do mesmo modo, impossibilitando a invenção de novas motricidades e condenando-nos à atrofia muscular, e com ela à atrofia do músculo cerebral.

O tato é, com efeito, uma componente determinante do nosso raciocínio causal, que nos ensina, pela experiência do prazer e da dor, a conexão entre fenómenos e a irreversibilidade dos processos materiais.

Por toda a nossa existência, fomos, pelo tato, construindo extensões do nosso corpo que acumulassem o conhecimento e os processos de conhecimento, indo para além do tato, mas sem nunca o dispensar. Recitar, representar, desenhar, escrever… são experiências táteis que potenciam a dimensão intangível do conhecimento, integrando-a plenamente com os nossos corpos.

A Humanidade é condicionada por fatores endógenos (as maravilhas e os disparates que fazemos) e exógenos (largamente mais relevantes, mesmo quando pensamos que tudo depende de nós e nos erguemos à categoria de demiurgos), que desencadeiam processos de adaptação e transformação.

Isso sempre foi feito, no passado, através da reflexão e da experimentação, ou seja, integrando as dimensões abstrata e empírica do raciocínio. Qual será a nossa efetiva capacidade de adaptação e transformação material, quando depositamos os processos de inteligência e raciocínio apenas na dimensão intangível, digital? Como poderão os nossos músculos cerebrais continuara a aprender, quando a diversidade de gestos que nos é requerida, para fins diversos, é cada vez menor?

A exposição “Do gesto à Arte”, no Museu de Mação, foi concebida partindo destas preocupações e da compreensão da relação que existe entre a gestualidade e o desenvolvimento cognitivo, destacando a ambivalência da gestualidade como criadora de materialidades e como instrumento de criatividade e comunicação.

O percurso expositivo estrutura-se em três dimensões: gestos que transformam o território (desflorestar, construir estruturas habitacionais, organizar espaços simbólicos e rituais); gestos que transformam as matérias primas em objetos (física, química, composição, reciclagem – através de artefactos líticos, em fibras orgânicas, cerâmicos e metálicos); gestos que se revelam de forma oculta (arte).

 

 
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